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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

PAPAI NOEL FUMANTE ???? (Os ‘Scripts’ do Marketing)


Já imaginaram, nos dias de hoje, algum tipo de marketing com a imagem de Papai Noel se acalmando com um cigarrinho? Ou ainda, com um bebê orgulhoso por saber que seu pai é fumante fiel de uma determinada marca de cigarro, que ele seguramente vai usar quando crescer?


Imagens incríveis sobre esse tema podem ser, literalmente, admiradas na exposição "Propagandas de cigarro - como a indústria do fumo enganou as pessoas" que está no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, a partir de segunda-feira, 29 de agosto, Dia Nacional de Combate ao Fumo ).

O objetivo é explicitar como a indústria do tabaco manipulou informações, utilizando falsas verdades para camuflar o fato de que seus produtos provocam graves problemas de saúde, como enfisema pulmonar e câncer (mais detalhes sobre a exposição no link : http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2011/08/29/sao-paulo-tem-exposicao-sobre-propagandas-enganosas-de-cigarros.jhtm).

Observem que o que nos parece óbvio HOJE EM DIA, há algum tempo atrás não era assim percebido. Já estamos todos muito bem informados sobre os malefícios do tabaco no organismo e no meio-ambiente. Desde às bitucas ou guimbas, à poluição atmosférica e até aos agrotóxicos nas plantações, entre outros danos. Portanto, o que torna essa exposição ainda mais interessante é justamente tornar evidente  a forma como mudamos e criamos opinião acerca dos fenômenos a nossa volta. São os denominados “agenciamentos de enunciação”, como diria Félix Guattari, em seu livro as Três Ecologias (1998).
Guattari (1998) sugere uma reinvenção dos modos de ser coletivos, numa tentativa de devolver à humanidade sua condição de ser integrado ao mundo, ao contrário da fragmentação e do isolamento que hoje nos é apresentado tanto pelo estilo de vida consumista quanto pelas teorias individualistas pós-modernas (a primazia do EU). Para isso apresenta a “ecosofia” como uma nova maneira do homem pensar sua relação com o meio ambiente, com sua sociedade e até mesmo com sua subjetividade (o si-mesmo). Ele nos estimula a questionar todas as esferas sociais, e a “reinventar maneiras de ser no seio do casal, da família, do contexto urbano, do trabalho, etc.”.

Por exemplo, qual a sensação de ver essas imagens após tantos  anos de informação antitabagista?  Muito foi aprendido desde aquela época, em função de tantas outras campanhas sobre os malefícios do cigarro. Reinventou-se toda uma lógica sobre a questão, não é mesmo?

Isso diz respeito à forma como certos valores  são engendrados subliminarmente em nossas mentes, para que sem nenhuma reflexão sejam cotidianamente reforçados em nossos conceitos e hábitos pessoais.  Isso também diz respeito à construção de nós-mesmos ou, ainda no linguajar ‘psi’, isso diz respeito, a grosso modo, à construção de subjetividades, que significa o sentido que damos ao nosso modo próprio de pensar e avaliar a nós mesmos e o mundo ao redor. Por isso que,  Guattari (1998) enfatiza que é de extrema importância para todos encarar os efeitos desta forma de controle social “no domínio da ecologia mental, no seio da vida cotidiana individual, doméstica, conjugal, de vizinhança, de criação e de ética pessoal”.

Não é a toa que já nos cartazes de época, entre os anos 40 e 60,   podem ser identificados vários elementos formadores de opinião coletiva (constructos sociais), os  quais ainda se mantém presentes nos ‘’agenciamentos’’  de subjetividades na atualidade e, talvez, com maior força. Como ‘agenciamentos’, entende-se a exaltação de modelos de comportamento  apresentados como ‘’ideais’’ para os indivíduos. Os ‘scripts’ que têm o apelo de garantir esforços desnecessários para a nossa existência ‘’feliz e saudável’’, dentro de um cotidiano conturbado, pouco acolhedor e doente:
  - magreza (aceitação e/ou atenção    
    social),
  - sedução (conquista e sexo),
  - poder (acesso e controle),
  - a sensação de bem-estar, uma das  
    características do uso (ou    abuso) de
    drogas (a felicidade).

Nestas mesmas mensagens publicitárias encontram-se subliminarmente  o receio de ser excluído dos benefícios sociais por trás dos ‘scripts’: ser gordo, ser deprimido, impotente, não encontrar aquele grande amor, o medo da solidão, a falta de sexo, a falta de atenção de outros humanos. Além de acentuar a rivalidade ou competitividade com o outro que possui produtos melhores que os seus (carros, roupas, eletrônicos, etc.), e/ou que tem o corpo ‘melhor’ e que, portanto, é mais ‘’feliz’’ do que você. Enfim, entre tantas outras possibilidades interpretativas reais, o que se vê nestes apelos publicitários são respostas  que dão conta da natureza humana. E, que existencialmente pensando, é a natureza do ‘não-saber’ antecipadamente as respostas necessárias para a existência própria, ao contrário das aranhas que já nascem sabendo tecer suas teias.

Como vimos, a Psicologia também atua na publicidade e no marketing. Ao que parece, tudo começou no início do século XX, com  John Watson (1878-1958), psicólogo americano fundador, em 1913,  da abordagem psicológica chamada de Behaviorista (Comportamentalista). Durante seu trabalho como pesquisador e professor de psicologia experimental na Universidade John Hopkins, em Baltimore, consolidou sua reputação  como um dos principais pesquisadores na área da psicologia animal. Desenvolvendo pesquisas em biologia, fisiologia e comportamento de animais e crianças, concluiu que o comportamento humano era sob muitos aspectos semelhante ao comportamento animal. No manifesto behaviorista,  publicado sob o título de “Psychology as the Behaviorist Views It” (“A Psicologia como os Behavioristas a vêem”, de 1923), Watson afirma: “O behaviorista, no seu emprenho de obter um esquema unitário da reação animal, não reconhece nenhuma linha divisória entre o homem e o animal”.
 Por isso, achava que  todo comportamento humano poderia ser compreendido em termos de estímulo e reação (por exemplo, estímulo ‘comida’ à resposta ‘salivação’). Alegando ainda que, ao contrário da psicologia introspectiva (que considera o estudo da mente humana), o behaviorismo permitiria aplicações práticas que afetariam positivamente a vida das pessoas, já que apresentava como objetivo de suas teorias  a previsão e o controle do comportamento humano.
O grande mérito conferido a Watson foi a junção do pensamento científico ao marketing. Pois, acabou por levar seu conhecimento de psicologia para a publicidade e o marketing, chegando a presidente da J. Walter Thompson, uma das maiores empresas de publicidade dos Estados Unidos. Lugar onde colocou em prática alguns de seus conceitos acerca das três emoções básicas do ser-humano: medo, raiva e amor. Por exemplo, numa campanha para a Johnson & Johnson, com o testemunho de médicos especialistas, a mensagem para os pais era a de que, se não usassem o talco deste fabricante, arriscavam-se a expor seus bebês a graves infecções.  Algo ainda muito comum nos nossos dias...


Dentro da premissa de que os seres-humanos podem ser condicionados a se comportar como qualquer outro animal, pode-se inferir que, as campanhas publicitárias se utilizam de valores e mensagens comprometidos com uma visão de  humanidade muito básica. Incompatível com as prerrogativas humanistas a que todos deveríamos estar submetidos para um desenvolvimento pessoal e coletivo inerente à mais ampla e irrestrita potencialidade humana.   Ao acentuar em nós a busca por recompensas fundadas em nossas necessidades animais (e primitivas ?!?!), esquecem-se  que para construir um ‘mundo melhor’, a humanidade necessita urgentemente de conteúdos que reforcem e enriqueçam a capacidade que temos  de interceder  no curso natural das coisas, fenômeno que nos distingue de qualquer outro animal.

Temos que estar atentos para o fato de que nada é veiculado ou ‘’agenciado’’ por acaso. Lembrem-se sempre disso. Observem vocês mesmos os conteúdos dos cartazes de propaganda de venda de cigarros e percebam as similaridades com as tantas mensagens que recebemos todos os dias.  E pense, será que realmente precisamos mesmo de tantos produtos  para fazer a vida acontecer?  Será que com tantas demandas do tipo “TEM QUE”, estaríamos mesmo nos recompensando? Adianta ter tantas coisas sem perspectiva de futuro para o planeta?  E quê mundo é esse em que vivemos?

Apesar das aparências, não estamos sós. Assim como precisamos encontrar respostas para quem somos, precisamos também de nos relacionar com tudo o que está no nosso entorno. Sozinhos, individualmente, podemos muito pouco. A lógica dominante se esforça por gerar o encantamento “no mundo da infância, do amor, da arte, bem como tudo o que é da ordem da angústia, da loucura, da dor , da morte, do sentimento de estar perdido no cosmos... “ (Guattari, 1998), anestesiando e neutralizando o potencial criativo de toda humanidade.  A existência por si só já se encontra carregada de tarefas difíceis. Escolhendo o mundo em que possamos viver menos inospitamente possível, estaremos verdadeiramente cuidando de nós mesmos e do todo a que pertencemos.  A fim de um ecologia humanista, social e ambiental, temos que trabalhar para a humanidade e não mais para um simples reequilíbrio permanente de um porvir ameaçador  e das suas lógicas doentias.
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NOTA:  Para entender melhor a questão da construção de subjetividades e a respectiva manipulação ou neutralização do poder crítico de cada indivíduo, assista ao vídeo vinculado à campanha “Pelo fim da publicidade às crianças” no site do Conselho Federal de Psicologia (CFP IN: http://www.pol.org.br/pol/cms/pol/publicacoes/videos/videos_091212_002.html )
                                                                   

             
Psicólogos explicam os motivos da campanha do CFP 
a favor de nossas crianças                                   

Ou ainda, leia a publicação do Vaticano, que por séculos sugeriu que os recursos naturais disponibilizados por Deus seriam inesgotáveis, opinando sobre a gravidade dos conteúdos publicitários para a ecologia mental, ambiental e social:

 “A publicidade que encoraja um estilo de vida desregrado, desperdiçando os recursos e saqueando o meio ambiente, causa graves prejuízos à ecologia.  O homem, tomado mais pelo desejo do ter e do prazer, do que pelo de ser e de crescer, consome de maneira excessiva e desordenada os recursos da terra e da sua própria vida... Pensa que pode dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à sua vontade, como se ela não possuísse uma forma própria e um destino anterior que Deus lhe deu, e que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair. Trata-se, sem dúvida, duma questão de vital importância: o progresso integral e autêntico da pessoa humana. A publicidade que limita o progresso humano à aquisição de bens materiais e encoraja um estilo de vida fastoso, exprime uma visão falsa e destruidora da pessoa humana, nefasta para os indivíduos e para a sociedade”.  (Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais – Ética da Publicidade, publicação feita pelo Vaticano em 22 de fevereiro de 1997, disponível na íntegra pelo link: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/pccs/documents/rc_pc_pccs_doc_22021997_ethics-in-ad_po.html ).
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Fontes ou para saber mais:

- BENÍCIO, Mila. A Violência na Linguagem  Revista Garrafa, UFRJ (Letras), JUL-SET, 2007. Disponível em: < http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/revista_garrafa14.html>.

- COBRA, Rubem Queiroz - Educação e Comportamento: Resumos Biográficos. Site   COBRA PAGES,  Brasília, 2003. Disponível em: http://www.cobra.pages.nom.br/ec-  watson.html.

- GOODWIN, C. James. História da Psicologia Moderna. São Paulo, SP: Ed. Cultrix, 2005.

- GUATTARI, Félix.  As três ecologias. Campinas, SP: Ed. Papirus, 1998.



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Em respeito a todos os ‘Amys’ e a nós mesmos...


Levei um susto quando vi a pequena nota publicada na internet no último sábado sobre a ainda possível morte de Amy Winehouse em sua casa. Mesmo não sendo uma fã, ou nem mesmo sabendo decor qualquer uma das suas canções, fiquei abalada. Pensando no fim prematuro e trágico de uma existência que parecia tão profícua, em função de escolhas das quais nem sempre alguém consegue se resgatar,  respeitosamente, lembrei de Keleman ( Viver o seu morrer, 1997): “Morremos o melhor que podemos; morremos a morte que tem a ver com a doença da qual sofremos...”. Assim, me dei conta que meu abalo também se justificava pela constatação do que já estava há algum tempo previsto e comunicado.  
Tentando compreender suas mensagens (letras) mais diretivamente[1],  percebi  a forma como abertamente escancarava sua condição desesperada de encontrar algum sentido para sua existência, usando palavras ‘cruas’, francas e rudes, para amplificar seu desamparo. O produtor de algumas faixas de Back to Black, Mark Ronson, afirmou numa entrevista que Amy é brutalmente honesta em suas canções, lhe chamando a atenção para o fato de  que “há muito tempo ninguém no mundo pop aparece contando seus defeitos, porque todo mundo vem tentando de tudo para demonstrar perfeição”, justificando tal atitude pelo fato de  Amy não ser obcecada por si mesma e nem  correr atrás da fama, pela sorte de ser tão talentosa.  Porém, finaliza dizendo o que se tenta compreender agora: “Parece sempre zangada, entediada ou provavelmente viva de ressaca”. (Texto na íntegra em: http://lfigueiredo.wordpress.com/2011/07/30/amy-winehouse-a-diva-e-seus-demonios/).


A 'amplificação do desamparo', também se escancarava pelo seu corpo e por seu comportamento abertamente compulsivo por bebidas, drogas, relacionamentos, diversão, tornando-se algumas vezes agressivo, até mesmo contra seus próprios fãs durante suas apresentações.  Pela perspectiva de sua ‘doença’, essa  demonstração agressiva, talvez também estivesse  escancarando   a falta de contentamento com toda aquela adoração distanciada e pouco acolhedora, para o que realmente buscava e necessitava: ser cuidada.
Uma vez, ao ser entrevistada em sua turnê pelos EUA, foi perguntada sobre o que ela imaginaria ser seu pior defeito, e respondeu: “Basicamente, sou muito negligente, sempre jogo a precaução pela janela”. E quando a conversa desvia para como Amy saberia se está na hora de cuidar de algum de seus defeitos, ela transfere a pergunta para Blake, seu marido, reforçando a 'negligência' para consigo mesma: “Baby, se eu tivesse um defeito, quando saberia que está na hora de parar e cuidar dele?”  
Outra marca repetitiva de suas canções: a necessidade de encontrar alguém para cuidar dela; pois, sabia que sozinha não daria conta de ‘si-mesma’. A mais fundamental de todas as limitações do existir  humano, já que o CUIDAR-DE-SI é prerrogativa para existência física e existencial. Visível a fragilidade deste SER, provavelmente, ainda mais deteriorado pelo abuso constante de drogas.
Em muitas de suas letras,  apresentou mais do que pistas sobre a incapacidade de fazer escolhas compatíveis com a força criativa que carregava em si. Criatividade que, por falta de ‘cuidados’ a si mesma e por parte de outros com quem podia contar, acabou por extinguir sua própria existência:
“(…)
Tentaram me mandar pra reabilitação
Eu disse "não, não, não"
É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
Vocês vão saber, saber, saber
Eu não quero beber nunca mais
Eu só oh, só preciso de um amigo
Não vou desperdiçar dez semanas
Pra todo mundo pensar que estou me recuperando
Não é só meu orgulho
É só até essas lágrimas secarem 
(…)”

Seu desamparo foi também marca do seu fim.  Mais uma vez lembro de Keleman (1997) se referindo ao desamparo como a dor básica da vida de todos NÓS, afirmando que “à medida que nos descobrimos incapazes de responder a nós mesmos, a dor aumenta progressivamente e nos submerge, (...)”.  Me alivia pensar que, qualquer que seja o outro lado - se não houver nada ou se houver outro mundo - ela vai encontrar a PAZ!
Ainda mais abalada fiquei hoje, quando ao buscar por esclarecimentos a cerca de sua morte, fui dar uma olhada nos comentários deixados por outros leitores a respeito do assunto, como faço habitualmente. Lamentavelmente, o que observei foi que aqueles que não se identificaram como fãs,  tecem uma série de considerações maldosas e prepotentes, às vezes até com brincadeiras repugnantes, sobre o desfecho trágico de  uma  vida ainda em formação.  Talentosa, criativa, sensível, bonita, rica, com sucesso e acesso a qualquer sonho materialmente possível, mas, que no âmago 'duplamente doente' de sua existência. 'Duplamente doente', porque além da falta de cuidado consigo mesma, penso na dependência química (drogadição ao álcool ou outras drogas ilícitas), reforçadora automática do alívio de suas ‘’carências e dores’’ que, muito provavelmente, deixou marcas profundas e limitantes em seu cérebro.
Percebo como óbvio que todos os que adicionaram comentários amargos e grosseiros, o fizeram a fim de  minimizar disfarçadamente o seu próprio desamparo, já que, como humanos, sofrem das mesmas dores da existência (angústia, busca de sentido, acolhimento), porém, ainda mais 'enfurecidos' por Amy ter desperdiçado  tudo o que acreditam que os aliviaria da dor e do esforço existencial para lidar com a VIDA. E além disso, deixam transparecer sua ignorância sobre os problemas relacionados à drogadição. Vejam alguns exemplos de comentários:

“(...)Na certa, não merecia a fama que teve, pois não era alguém forte para saber lidar com isso, e logo caiu no mundo das drogas e bebidas. DÓ? Imagina, ela era adulta e sabia o q estava fazendo, e com certeza as consequências, mais do que expostas por outros músicos famosos que morreram em razão de drogas e bebidas. Já foi tarde! E que as pessoas consigam ídolos melhores, com bons exemplos de vida!”

Ou ainda:

“(…)Vamos parar de fazer apologia a essas pessoas que não servem de modelo de vida. (…)”.

Desculpem se precisei reproduzir esses comentários. Uma das intenções  era a de deixar  explícita a dimensão da ‘’praga emocional da humanidade”. O sentimento mais destruidor das relações humanas, uma compreensão acerca da existência limitada às próprias frustrações e limitações.  Basta observar que nos dois comentários existe referência  a exemplos ou modelos de vida, como se eles mesmos não estivessem lá muito satisfeitos com os exemplos que seguem e estivessem em busca de melhores opções, principalmente, para que não precisem eles mesmos fazerem suas próprias escolhas.  

Seja como for o escopo da dor (ou da ‘doença’) que carregam,  aliado a isso está também a falta de informação sobre a drogadição. Por trás de alguns comentários, existem crenças ou mitos  os quais, atualmente,  já foram esclarecidos por conta das novas tecnologias de imagem e estudos neurocientíficos a cerca do porquê de alguns indivíduos ‘adoecerem’ e perecerem com o (ab)uso de drogas.  Compartilhar estas informações é a outra intenção deste post, a fim de requerer algum respeito àqueles que, como Amy, sofrem  ou sofriam  com este mal.
Sabe-se hoje que, o consumo repetitivo de drogas prejudica o cérebro causando alterações de longa duração em seu funcionamento e, inclusive,  em sua forma (estrutura física,  ou como popularmente se conhece, nos “miolos”).  Estas alterações cerebrais interferem com a habilidade do usuário de drogas pensar lucidamente, de  fazer julgamentos criteriosos, de controlar o comportamento, e de se sentir normal sem o uso da droga.  Estas alterações também são responsáveis, em grande parte, pelas crises de abstinência (mal-estar físico e emocional causado pela falta da droga) e, consequentemente, pela compulsão para o uso, o que faz do vício tão poderoso. Para não sentir os fortíssimos efeitos da abstinência, o cérebro do usuário, ‘’acostumado’’ ao consumo, envia informações persistentes e cada vez mais desconfortáveis em função do consumo da droga. Somente para efeito de comparação, seria algo parecido com o que percebemos e sentimos quando ficamos sem comer por muito tempo (falta de açúcar ou glicose).
Num primeiro momento, a dependência química se estabelece  em conformidade com o Sistema de Recompensa do Sistema Nervoso Central. No sistema límbico (área relacionada ao comportamento emocional, parte mais antiga do cérebro, localizada abaixo do néo-cortex), acha-se uma área relacionada à sensação de prazer, chamada circuito de recompensa cerebral. Estudos com animais demonstram que estímulos elétricos nestas regiões provocam sensações de prazer e levam as repetidas tentativas de estimulação. Todas as drogas de abuso, direta ou indiretamente, atuam no circuito de recompensa cerebral, podendo levar o usuário a buscar repetidamente essa sensação de prazer.
A doença da dependência química,  seja ela psíquica ou física, é causada pela necessidade que muitas pessoas têm de escapar do desconforto físico e/ou emocional. É muito provável que alguém comece a beber para entorpecer sentimentos depressivos ou se mostrar muito ‘social’,  por exemplo, mas, enquanto as drogas trazem sensações agradáveis num curto espaço de tempo, essas tentativas de ‘automedicação’ acabam por se tornar tiros pela culatra. Pois, buscam alívio rápido ao invés de tratarem dos sintomas subjacentes, e assim, mascaram a verdadeira causa da busca por drogas. Quero dizer, se a droga for retirada, o problema ainda estará lá, seja por baixa autoestima, ansiedade, solidão ou uma vida familiar infeliz.
Além disso, o uso prolongado de drogas traz eventualmente seus próprios problemas ‘’hospedeiros’’, incluindo-se aí grave ruptura com o funcionamento cotidiano, com danosas consequências psicológicas, físicas e sociais. Acrescentando ainda mais desconforto para o dependente, além daquele(s) que se evitava lidar. Enfim, a potência criativa inicial, com o abuso constante de drogas,  vai se transformando em cada vez mais fragilidade e incapacidade para encarregarem-se da difícil tarefa de construírem a si próprios e ao mundo, conforme suas possibilidades, simplesmente humana. Ou, demasiadamente humana, parafraseando um filósofo alemão.

Apesar de toda ‘’força’’ do vício existem indícios no avanço científico e metodológico no  tratamento de dependentes químicos. Por exemplo, no Brasil, são comunicados índices que variam de 30 a 60% na recuperação de pacientes, dependendo do estabelecimento de saúde e abordagens adotadas no tratamento. E para que essas estatísticas continuem aumentando, conforme levantamento publicado num site americano voltado para o abuso de drogas, existem mitos sociais que funcionam como empecilho a novas reflexões e atitudes no encaminhamento, manejo e  recuperação de dependentes químicos, que devem ser reconsideradas:

Mito 1: Vencer a dependência ou o vício é simplesmente uma questão de força de vontade. Pode-se parar de usar drogas se assim o usuário realmente desejar.
- Uma exposição prolongada às drogas altera o cérebro estrutural e funcionalmente, o que resulta em poderosa necessidade e compulsão para o uso. Estas mudanças cerebrais tornam o abandono do comportamento de se drogar extremamente difícil por força de vontade ou mudança de perspectiva.

MITO 2: O vício é uma doença e não há nada que se possa fazer sobre isso.
- Muitos especialista concordam que o vício é uma doença cerebral, mas isso não significa que o usuário é uma vítima sem esperança.  As mudanças no cérebro associadas ao vício podem ser tratadas e revertidas por meio de terapia, medicação, exercícios e outros tratamentos complementares.


MITO 3: Os dependentes de drogas têm que chegar ao fundo do poço antes que eles consigam alguma melhora.
- A recuperação pode ser iniciada a qualquer momento no processo de adição. No entanto, o quanto mais cedo melhor. Quanto maior for o tempo do abuso de drogas, mais fortemente   a doença se instala e mais difícil será o tratamento. Não espere que o dependente perca tudo para intervir no processo de adoecimento.

MITO 4: Não se pode forçar o tratamento a alguém. Eles devem querer ajuda.
- O tratamento não precisa ser voluntário para ser bem sucedido. Pessoas que são pressionadas a se tratar por seus familiares, empregadores ou outras instituições estão propensas a se beneficiarem tanto quanto aqueles que escolheram  iniciar o tratamento por sua própria conta. Quando eles conseguem ficar sóbrios e seus pensamentos se tornam lúcidos, muitos daqueles que resistiam ao tratamento decidem que querem mudar.
MITO 5: O tratamento não funcionou antes, portanto, não há motivo de se tentar mais uma vez, alguns casos são perdidos.  
- A recuperação da dependência em drogas é um longo processo que frequentemente envolve algum retrocesso. Recaída não significa que o tratamento falhou ou que o caso é uma causa perdida. Melhor pensar que isto é um sinal para se retomar o caminho, ou para retornar ao tratamento ou para ajustá-lo a uma outra abordagem.

Assim como muitas outras condições e doenças, a vulnerabilidade ao vício difere de pessoa para pessoa. O que se supõe, hoje em dia, é que uma pessoa pode se tornar  dependente química para qualquer droga em função de seus genes; da idade que iniciou o consumo; e de seu meio-ambiente familiar e social.  Sendo que nenhum fator isoladamente determina se o indivíduo virá a ser ou não um dependente químico, existem muitos casos de resilientes em meios sociais totalmente desfavoráveis. No geral, são os seguintes os fatores de risco apontados como ‘fenômenos’ que aumentam a vulnerabilidade à dependência química de um indivíduo exposto ao consumo de drogas:

- Histórico familiar para vícios;
- Abuso, negligência ou outras experiências traumáticas na infância;
- Transtornos emocionais,  como  aqueles causados por  depressão e ansiedade;
- Precocidade no uso de drogas.

A explicação da neurociência é que, diante de certos comportamentos ou consumo excessivo de uma substância, o sistema de recompensa é ativado ao extremo e, por proteção, acaba se dessensibilizando. Fazendo uma comparação bem simples, é o mesmo  que ocorre com o elástico esticado além do limite e que não volta mais ao normal.
Importante salientar que quase todas as drogas têm o potencial para o vício e o abuso, da cafeína aos medicamentos prescritos pelo médico, dos drinks ocasionais, do cigarro, às drogas ilícitas, as quais ainda fomentam a violência urbana - desde a corrupção policial  ao assalto ou latrocínio em qualquer sinal de trânsito da cidade.
"O fenômeno de dependência de drogas é algo que se prende à condição humana com diversas finalidades, desde a de apaziguar as dores, as angústias, as tristezas, até o de elevar aos deuses", escrevem os psiquiatras Antônio Pacheco Palha e João Romildo Bueno no prefácio do livro "Dependência de Drogas", que compila textos de 54 especialistas no assunto. "Assim sendo", continuam eles, "é natural que, enquanto houver dor, angústia, frustração, abatimento e dúvidas o homem irá continuar o uso de drogas ". Portanto, quem na sua existência consegue passar pela proeza de não sofrer qualquer tipo de ‘trauma na infância’ , assim como, não sofrer frustrações e/ou excitações (depressão e/ou ansiedade) que causem alguma distorção no funcionamento ‘normal’ cotidiano, mesmo que ocasionalmente, frente a tantas variáveis e dificuldades existenciais ?  
É sobre isso que cantam Marisa Monte e Arnaldo Antunes no vídeo abaixo.





E assim, pensando de novo  nos comentários maldosos sobre a morte de Amy Winehouse, no paradeiro desses e na morte (finitude), a que todos estamos sujeitos a qualquer momento, em nossa condição de desamparo (o não-saber),  fenomenologicamente se pode dizer que somos todos dependentes de  sentidos para aliviar as nossas aflições. É claro que muito frequentemente somos ‘’vítimas’’ de distrações menos  ou mais lentamente destrutivas – comida, doces, chocolate, sexo, jogo, compras, etc. –, as quais nos desviam  daquilo que somos e podemos na construção de realidades verdadeiramente recompensadoras.
Filme: Requiem para um sonho" (2000) .
          Uma visão frenética, perturbada e única sobre pessoas
que vivem em desespero e ao mesmo
 tempo cheio de sonhos. 
Como em qualquer outro animal, a busca pelo prazer nos move e, por isso,  é fomentada cotidianamente pelos meios de comunicação. Tendemos a repetir ações agradáveis e às vezes é nesse prazer que encontramos uma forma de fugir das dificuldades. O problema é quando o "gostar muito" se transforma em dependência, e o prazer se transforma em dor.
Conforme Keleman (1997): “Quando nos levamos a sério, somos diretamente arremessados para a vida e para uma nova realidade do nosso róprio morrer”.  Temos sim é que estar atentos ao potencial criativo que carregamos, para que encontremos respostas mais construtivas e consistentes com nossa humanidade,  sem nos deixar levar por emoções distorcidas, como o desprezo ao sofrimento alheio.  
Portanto, a fim de que haja alguma coerência nas atitudes das pessoas que se queixam por não terem melhores modelos de vida para se espelharem, espera-se que  por meio da empatia ou compaixão pela condição humana (deles também!), conquistem novos potenciais para existir e transmitir melhores exemplos de convivência para seus filhos, parentes, amigos próximos, vizinhos, colegas de trabalho, ou ainda, para leitores de comentários da web.


Para saber mais:

- Keleman, S.. Viver o seu morrer. São Paulo: Summus, 1997.

- “Do Prazer à dor”, Revista Galileu, Especial nº 3. Agosto/2003. Disponível em: http://reformapsiquiatrica.wordpress.com/2010/08/08/do-prazer-a-dor/

- “Drugs and the Brain”, National Insitute on Drug Abuse (NIDA) – The Science of Drug Abuse & Addiction. EUA.  Disponível em: http://drugabuse.gov/scienceofaddiction/brain.html;

- “Drug Abuse and Addiction, signs, symptoms and help for drug problems and substance abuse” – HELPGUIDE.org, A Trusted non-Profit Resource. EUA. Disponível em: http://helpguide.org/mental/drug_substance_abuse_addiction_signs_effects_treatment.htm

- “Tratamento e Reabilitação”, Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (UNIAD) – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Brasil. Disponível em: http://www.uniad.org.br/

[1] Encontrei 131 canções, algumas disponibilizadas também em português,  em http://letras.terra.com.br/amy-winehouse/ .

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Psicoterapia ?!?! O que é isso ??? (PARTE II)


Parte II: Psicoterapia - aprendendo a se cuidar e a escolher 

Já conseguiram compreender a dimensão (tempo-espaço) dos encontros psicoterapêuticos? Encontraram um prazo específico para prever de antemão o fim do acompanhamento clínico psicológico?
Para maiores esclarecimentos sobre o funcionamento prático/teórico deste acompanhamento, aí segue a segunda parte das considerações necessárias. 
A prática da psicoterapia funciona como uma ‘escuta técnica’ para as questões existenciais (fenômenos) que permeiam a vida de qualquer pessoa. Questões que ganham  significados próprios nos múltiplos entrelaçamentos de redes neuronais, os quais dão substância à mente humana.  E,  como esses fenômenos não existem por uma única causa e não podem ser vistos a olho nu, as respostas dadas pela Psicologia também podem ter diversas interpretações que, a grosso modo, respondem à forma de como foram observados.  É só lembrar da fábula dos cegos e do elefante,  onde cada cego ao tatear um elefante dava sua própria impressão do que era o ‘bicho desconhecido’, baseando-se somente na parte tocada (disponível em http://gpintg.blogspot.com/2010/02/fabula-indiana-dos-cegos-e-o-elefante.html).
Assim também acontece com a tão divulgada ‘terapia do divã’, chamada de Psicanálise,  fruto do pioneirismo e esforço de Sigmund  Freud (lê-se FRÓIDE),  em pesquisar, sistematizar  e  divulgar sua  T E O R I A  sobre o funcionamento do psiquismo humano, desde o fim do século XIX.
Acentuo a palavra ‘teoria’ para esclarecer que o termo se refere a uma  explicação dada a um determinado fenômeno que não pode ser replicado ( ou comprovado) por experiência científica, mas que apresenta em seu conteúdo consistência lógica justificável, mesmo que utilizando de metodologia científica para sua constatação.
É só lembrar da Teoria da Evolução de Darwin, aquela que pressupõe que o ancestral do Homem é o macaco. Darwin, a partir de anos de estudos e observações, montou um quebra-cabeças bastante consistente com o que foi observado em suas pesquisas, pois,  não tinha como apresentar evidências científicas para respaldar suas conclusões (ou hipóteses). Daí  o “título” Teoria, que diferentemente do termo ‘LEI’ (a Lei da Gravidade, por exemplo), não  tem  condições de apresentar evidências objetivas necessárias que possibilitem a tal ‘prova científica’ (=replicação do experimento) a fim de que suas premissas sejam indefinidamente replicadas e, por isso, comprovadas cientificamente (no sentido bem restrito de seus métodos). 
Nas Ciências Humanas (estudos sobre as diversas facetas do existir humano), como já visto, a diversidade de perspectivas, qualidades, características, comportamentos, etc., passíveis de observação e estudo é muito variada. Por isso, a difícil padronização de métodos frente as diversas possibilidades de interpretação de um mesmo fenômeno. Tema de muitas discussões no meio científico, fazendo com que alguns estudiosos da ciência (‘científica’ ao pé da letra) questionem a utilização do termo “Ciências” para o estudo dos fenômenos da humanidade. (Segundo o célebre físico, Stephen Hawking, no livro “Uma breve história do tempo”, “não importa quantas vezes os resultados das experiências estejam de acordo com algumas teorias, não se pode ter a certeza de que na próxima vez o resultado não irá contradizê-las. (ou seja)… você pode refutar uma teoria por encontrar uma única observação que não concorde com as suas previsões" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria).
Dadas essas explicações, chego de novo à teoria psicanalítica de Freud (a do divã), a mais difundida dentre todas as outras ‘linhas’ (=teorias psicológicas) que tentam dar alívio ao sofrimento psíquico do ser-humano. Retorno a esse ponto, a fim de elucidar que a proposta de intervenção clínica (=prática terapêutica) da psicanálise é apenas mais uma entre tantas: como a fenomenológica-existencial, a analítica junguiana, a comportamental, a cognitivo-comportamental, as diversas abordagens corporais, algumas com base psicanalítica, outras junguianas, outras fenomenológicas, etc.. E, assim, trazer compreensão de como o “olhar’’ e perspectiva do pesquisador influenciam na sua teorização. 
Freud, observando as manifestações psíquicas de seus pacientes e utilizando-se de um pensamento racional brilhante e metodologia científica desenvolveu sua teoria da mente a partir de observações clínicas consistentemente organizadas. Foi desta forma que tentou dar ao conceito de INCONSCIENTE um status científico (não compartilhado por várias áreas da ciência e da psicologia), considerado, na época, revolucionário para o entendimento do funcionamento do psiquismo humano e, consequentemente, do  comportamento humano frente às variáveis da existência. Lembrando que esses conhecimentos sobre o funcionamento psíquico humano, basearam-se no caldo cultural do período final do século XIX, e primórdios do século XX. Ou seja, tinha como objeto de investigação, um ser humano adaptado às conformações  culturais e sociais de um tempo e espaço muito específicos da sociedade européia burguesa e intelectualizada (alguns ainda salientam a característica moralista desta fase). Bem diversa da realidade humana que sobrevive e se adapta às diversidades cotidianas no meio familiar, ambiental e social, de todo o resto do planeta (http://fundamentosfreud.vilabol.uol.com.br/biografia.html).
É óbvio que o fato dessas Teorias, não possuírem  o reconhecimento unânime da comunidade científica,  não desmerece em nada a genialidade de seus autores e de suas constatações. A grosso modo, é como se cada um apresentasse um pedaço do joguinho de quebra-cabeça, que pode ser considerado como a visão do psiquismo humano em sua totalidade. O que dever ser esclarecido é que  como essas teorias acerca do homem foram construídas “tateando’’ o ‘bicho desconhecido’,  apesar do brilhantismo de seus conteúdos, não há como se tomar essas constatações como absoluta e única verdade para descrição isolada dos fenômenos investigados por elas. Pelo menos, no que tange à ciência chamada de Psicologia, pode-se dizer que a Psicanálise, assim como tantas outras teorias psicológicas, descrevem UMA POSSIBILIDADE  de explicação  para os fenômenos do psiquismo humano, de acordo com a lógica utilizada para construir (ou idealizar) a realidade e o funcionamento humano dentro dela.
Neste sentido é que os fundamentos da fenomenologia foram considerados como uma nova possibilidade de compreensão do comportamento humano. Retirando, a princípio, os postulados teóricos cientificistas que poderiam encaixar qualquer manifestação humana dentro da perspectiva de quem os formulou. E não de quem sente e significa sua própria existência. Um exemplo das possíveis limitações de uma pessoa se encaixar em alguma teoria, é dado por aqueles que se apresentam com seus diagnósticos até mesmo num encontro informal, quando descobrem minha profissão. Tipo “sou bi-polar”, como se a descrição dos sintomas ‘cienticamente estudados’ da bi-polaridade fosse o único sentido dado por aquela pessoa a sua existência, e ponto final. Fenomenologicamente pensando, pode ser até que essas pessoas realmente se satisfaçam com isso, pois parece que encontraram um solo familiar na existência da onde podem se expressar e interagir satisfatoriamente com os outros e o mundo. No limite da interpretação possível para o caso, quem ela é ou pode vir a ser, fica a cargo da teoria e não das escolhas pessoais possíveis, que podem ser suscitadas com a psicoterapia que dê suporte para isso.
Enfim, como esse ‘bicho desconhecido’ chamado ‘mente humana’ é o resultado de infinitas possibilidades de interações neuronais, não há como se comprovar cientificamente sua localização ou ainda esquematizar seu funcionamento de forma absoluta.
O importante é que quando em busca de um ‘tratamento psicológico’ se entenda que a Psicologia ou a “linha” de compreensão psicológica oferecida, no sentido de uma única explicação para o funcionamento humano, não existe. Existem sim, as várias abordagens psicológicas que tentam, de acordo com a perspectiva de seus autores, explicar o funcionamento humano no mundo e a realidade que o cerca.  (http://pt.scribd.com/doc/7345630/Ana-Maria-Bock-A-Psicologia-e-as-Psicologias-Doc-Rev). Assim como o exemplo demonstrado anteriormente, cabe a cada interessado no seu desenvolvimento pessoal,  encontrar a abordagem que melhor se enquadre em seu próprio sistema de crenças e possibilidades existenciais, para que a tarefa de encontrar o ‘si-mesmo’ (autenticidade) tenha a empatia necessária com o que lhe será comunicado pelo terapeuta (--> sentido, significado).  


Por quanto tempo fazer terapia? Quantas vezes por semana? Qual é o valor do investimento?  

Conforme já apresentado acima, o tempo do acompanhamento psicológico dependerá da ‘abertura’ de cada pessoa para (re-)significar as velhas e as novas possibilidades com a vida.  De acordo com sua história, o psicólogo, funcionando como um facilitador entre o 'conhecido' e o porvir, possibilita ao paciente conscientizar-se sobre suas limitações e possibilidades individuais (abertura) e, desta forma, fomenta alterações nos padrões de comportamento, pensamentos, convicções e emoções.
Portanto, cada profissional terá a competência necessária para sugerir o número de encontros semanais, horários e valores, estes últimos podendo ser negociáveis. Tudo deve ser conversado desde o primeiro encontro. A duração da sessão é de 50 min, para atendimentos individuais, as quais  ocorrem com a frequência mínima de 1 encontro semanal. Também são feitos acordos sobre faltas, reposições de horário, férias, atrasos, quando também deve ser estipulado um prazo hábil para que as sejam sessões desmarcadas sem nenhum ônus para ambos.