Mostrando postagens com marcador realidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador realidade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Meu filho, você não merece nada




Meu filho, você não merece nada
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada




http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo2/Materia/exibir.ssp?materiaId=247981&secaoId=15230
Simplesmente genial a articulação do conteúdo pesquisado para a matéria publicada pela jornalista Eliane Brum, na Revista Época, de 11/07/2011.
A experiência clínica e o olhar ''psi'' sobre os fenômenos ao redor, observados nas diversas queixas de adolescentes e jovens adultos, têm me apontado para essa mesma dinâmica reconhecida pela jornalista, e que eu me habituei a chamar  de 'inteligência incapacitante'. Indivíduos jovens, de raciocínio rápido e fluente, oriundos da classe média tradicional, com uma rica bagagem intelectual e cultural,  para quem muitas vezes as limitações emocionais pessoais soam como fracassos, deméritos, ao invés de simples falta de experiência no embate com a vida real. Pois, não sabem o que fazer para continuarem obtendo do mundo o mesmo ''sucesso'' que encontraram no núcleo familiar, bancos escolares e universitários. Suponho que a faixa etária destes jovens vá  até algo em torno dos 25 anos e cujas características e conflitos existenciais típicos se encaixam  àqueles apresentados pela autora da matéria. Salvo algumas variáveis próprias de histórico pessoal.
Imperdível a leitura deste texto para a compreensão da dinâmica psicológica, que se constrói na realidade dada (mundo conhecido, familiar) como única e absoluta, a despeito de todo 'psicologuês' voltado para o entendimento da subjetividade como entidade que acontece apartada da realidade experienciada, como aquele das teorias universais acerca do Homem. Parecido com o que já comentei sobre a possibilidade de um jovem de uma tribo de pastores africanos , por exemplo, se projetar no futuro como um físico ou astronauta (vide post "Adolescer'' na página sobre adolescentes neste blog). O mesmo acontece com esses jovens de nosso grupamento social que conhecem o mundo pronto para usar. E, desfrutar, é claro!.
Quero dizer, é visível a falta de conexão desta parcela da juventude com o fazer cotidiano e as implicações deste fazer para o desenvolvimento pessoal rumo ao futuro ''programado'', como se as coisas do mundo que vêm ao encontro deles, já tivessem que estar prontas para o simples desfrute deles. Meio aquela sensação de '' é só abrir a embalagem e pronto! '' Não reconhecendo a possibilidade do atrito com a realidade como experiências  que irão se constituir como outras manifestações de sua existência no mundo. Reagem impulsivamene quando 'a mercadoria' demanda alguma elaboração a mais, pois o ''trabalho'' decorrente é percebido como perda de tempo. Ou ainda, como uma imensa frustração do tipo consumidor enganado.
Mãos na massa, pessoal !!!
Não existem 'brinquedos'  que garantam
prazer, felicidade
e bem-estar depois dos 10/12 anos. 
Tenho pensado muito no assunto e acredito, a princípio, que o hábito de terem recebido desde o nascimento todos os itens necessários para o seu prazer, como se estes existissem somente para agraciá-los, faz com que nem se percebam ''atrofiados'' para gerarem em si mesmos as respostas que, como pais (e simples humanos), não conseguimos mais maquiar ou formular.
Afinal, assim como diz a jornalista, e assim como a psicologia existencial postula, a cada um cabe a responsabilidade de fazer escolhas por si mesmos, tateando o emaranhado de sentidos do mundo a conformação de sua autenticidade. Para isso, há que se ter criatividade, auto-conhecimento e auto-regulação (ou, no popular, jogo de cintura) para fazerem as coisas acontecerem e para que, ao mesmo tempo, aconteçam  e existam no mundo. Ou seja, não podemos poupar nossos filhos da humanidade inerente a existência deles. Se fazer é tarefa de todos.
Ou, como disse a amiga que me indicou essa matéria: "Choque de realidade neles!!!" Para que consigamos acordar deste sonho tão irreal  e  fazer a vida acontecer com as pessoas e coisas que estão aí, a nossa volta.

terça-feira, 21 de junho de 2011

OLHAR FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL ?????


- A EXISTÊNCIA como fenômeno

Entende-se por EXISTÊNCIA, o lugar (espaço e tempo) onde o homem pensa sobre o seu projeto de vida e trava a batalha cotidiana do seu próprio destino. Para o existencialismo, a fenomenologia de Husserl significou uma nova possibilidade de se ‘conhecer’ o fenômeno da mente humana (consciência) diferente daquela postulada pela ‘ciência positivista’ e dos métodos racionais de organização em teorias.
O homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define, seja na sociedade burguesa européia ou na favela aqui do lado. Quero dizer, ninguém pode se poupar da  tarefa primordial de se construir dentro da realidade que o envolve.
Assim, o  método fenomenológico seria a forma ou o caminho que o terapeuta possui para aproximar-se da singularidade da existência de cada um. Esse modo de pensar e de se aproximar da existência própria e do outro, chamado fenomenologia-existencial, pode fundamentar uma ampla gama de atividades desenvolvidas em psicologia. Fundamenta a psicoterapia de adultos, adolescentes, crianças e grupos, o psicodiagnóstico e a psicopatologia. Também pensa as instituições e os fenômenos institucionais de uma maneira 'nova'. (http://www.fenoegrupos.com/cursos.php).
No âmbito das ‘ciências humanas’, existem muitas filosofias existencialistas, mas seus postulados comuns são fundamentais para compreensão do trabalho terapêutico realizado na clínica. Resumidamente, estes postulados indicam a dimensão do existir humano:

1.                   O ser humano compreendido como indivíduo (único e singular), e não por meio das teorias gerais sobre o que é o Homem e a realidade. Assim, a experiência interior ou subjetiva é considerada mais importante do que a verdade "objetiva", vista pelo terapeuta que a encaixa em seu conjunto de teorias;
2.                   A ‘Existência’ como objeto de investigação e de modelagem do projeto humano em permanente "devir" (acontecer). O ser-humano é o artífice de seu próprio projeto existencial, como realidade aberta aos outros e ao mundo;
3.                   O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade mediante um projeto. O homem se faz em sua própria existência. A existência não se baseia numa essência pressuposta;
4.                   O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;
5.                   A falta de sentido (para onde vamos e porque), tem como consequência a indeterminação,  ou a liberdade para SER. Essa ameaça permanente de sofrimento dá origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e ao desespero. Ênfase na liberdade dos indivíduos (e nas suas escolhas) como a propriedade humana distintiva mais importante, da qual não se pode fugir.  Até mesmo quando ‘não escolhemos’, estamos ‘escolhendo não escolher’ alguma possibilidade iminente.
6.             Essa vivência existencial, como fonte de angústia, para os existencialistas cristãos, aponta o caminho da intersubjetividade (comunhão com os homens) e da transcendência (comunhão com Deus). Para os existencialistas ateus, conduz à morte, ao nada.

E o que fazer para sobrevivermos a estas condições existenciais mantendo-nos 'lúcidos e saudáveis' (responsável por si-mesmo) para boas escolhas e, assim, construirmos o futuro que desejamos? Essa questão serviu como base para a elaboração de novos caminhos ou abordagens terapêuticas, numa aproximação feita entre os conhecimentos  da filosofia (perspectiva da realidade), da medicina  (compreensão do organismo humano) e da psicologia (interação entre a realidade, o organismo e a mente humana). Uma perspectiva para se ''OLHAR'' a humanidade e a existência assim como estas se apresentam, a fim de construir a compreensão dos fatos (fenômenos apresentados) de acordo com as possibilidades (escolhas) de cada um. 
Este ''olhar'' proporciona uma compreensão a cerca do comportamento HUMANO, que, ao invés de interpretar certos fenômenos como uma ''anormalidade'' (doença, por exemplo), compreende-se que o fulano-de-tal responde à sua realidade (dimensão humana e condições próprias de existência - faticidade) de acordo com suas possibilidades de escolha. E a tentativa psicoterápica de intervenção, a grosso modo, seria a de ampliar sua capacidade de fazer escolhas, aumentando a consciência de si mesmo e de sua abertura para interagir com o mundo e os outros (realidade). 
Pensando no mundo em que vivemos, distraídos da tarefa de construirmos a nós-mesmos, de interagirmos com os outros respeitando a humanidade inerente a cada um, e da realidade ao redor (compartilhada por todos), lembro agora daquela velha máxima: " De perto ninguém é NORMAL !!! " ou ainda "Controlados, estamos todos calmos...".