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domingo, 7 de agosto de 2011

"SEM PENSAR"... E as consequências????


“Sem Pensar…  E as consequências?

Peça:  Sem Pensar
TUCA – Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes – São Paulo

Sextas e sábados, às 21h30 e domingos, às 19h até 02/10
Preço: De R$40 a R$ 60

Tel: (11) 3670-8455

Assisti à peça ‘Sem Pensar’ (Spur of the moment, titulo original em inglês que pode ser traduzido como “Impulso Repentino” ou ainda, fico pensando que pode-se  ter a dupla conotação de ‘of the moment’ como algo que está no repertório cotidiano sem nenhuma propriedade com aqueles que assim se comportam).
O espetáculo me deixou curiosa quanto a sua criação. A peça, que foi trazida da Inglaterra pelo cineasta Luiz Villaça, diretor desta montagem, foi escrita por uma jovem inglesa, Anya Reiss, de apenas 17 anos, e trata das relações familiares ‘’do momento’’.  Ou, o olhar de uma adolescente para as relações familiares que, muito possivelmente, permeiam o cotidiano de muita gente.
Segundo a atriz Denise Fraga, que de forma elegante e simpática recepcionava sua platéia a entrada do teatro, o que a fascinou nesse texto foi justamente o fato de “que ele fala da nossa cegueira cotidiana”. Acrescentando que “a gente, às vezes, almoça e janta com pessoas que a gente mal conhece que são nossos filhos e maridos. Pessoas que a gente ama, mas trata tão mal”.
Uma instituição em crise ou a crise da desumanização?
Antes de tudo, interessante salientar a universalidade da dinâmica familiar descrita pela jovem autora. Da referência a produtos de consumo globalizado, como algumas músicas ‘’teens’’, que não são do meu conhecimento para referenciá-las,   ou os filmes do Harry Potter, aos papéis sociais designados a cada gênero. Ou, como é ser  ‘papai’ e  ‘mamãe’, ou ainda, como é ser ‘marido’ e ‘esposa’, numa família de classe média inglesa convencional, a duras penas para se manter no conforto de seu “Lar’’. A origem inglesa da representação, em nada modifica a dimensão das relações e papéis  sociais apresentados na peça aqui no Brasil. Pode-se até mesmo inferir que ‘a cegueira’, a que Denise Fraga se refere, se trata da crise existencial da ‘sociedade-ocidental-patriarcal-capitalista-judaico-cristãdo momento.
Me parece óbvio que não se poderia esperar de uma menina de 17 anos, a autora do texto, um aprofundamento vivencial que desse sustância à apresentação. Porém, o que foi representado já dá pistas de que a vivência familiar, seja na Inglaterra ou no Brasil,  está mais do conformada às limitações do ‘’conforto’’ que a vida moderna oferece.  Será esse também um fenômeno da globalização? Ou melhor, quais são os benefícios  que tais padrões de comportamento trazem à sociedade e à humanidade? E ao desenvolvimento humano, pensando-se na necessidade de interação como fundamento básico para a existência? (Sem falar na questão ecológico-ambiental....).
No sentido de tentar encontrar uma resposta a estas questões (ou problematizar ainda mais) duas dinâmicas me chamaram a atenção. Primeiro, nas tentativas de resolução do conflito iminente do casal padrão (a traição do marido), pode-se constatar as angústias e aspirações individuais abafadas por esse tipo de relacionamento ou compromisso afetivo ‘modelo’. E, justamente na interação cotidiana do casal que se manifestam os comportamentos modelos que (in)viabilizam a convivência.
De um lado, o padrão de comportamento masculino, com a concepção de que a união conjugal e consequente  constituição de uma família, lhe garanta a primazia ‘’tribal’’. Um lugar onde sua participação se limita ao usufruto das instalações residenciais e da fêmea disponível, além da responsabilidade de garantir o sustento de todo o grupo. Do outro, o feminino, a instabilidade emocional, tipicamente histriônica, para o desempenho de todas as demandas restantes para a manutenção do ‘Lar’’, que lhe garanta a presença do masculino, a família modelo e o prêmio de mãe/esposa do ano: negociações emocionais com o marido e familiares, educação e orientação dos filhos, alimentação, organização da casa, limpeza, economia doméstica, etc..  
Em ambos os cônjuges, o convívio cotidiano parece estar comprometido à manutenção de idéias (ou ideais) padronizadas(os) e pouco, ou nenhum, espaço é dado para a interação humana entre as pessoas que escolheram viver juntas para sempre e sua prole. Tudo acontece como se o sonho da ‘família feliz’, se justificasse apenas pela atuação de papéis pré-estabelecidos em modelos de comportamento padronizados a cada gênero e faixa etária.
Esse foi meu susto, o velho modelo de ‘papai-e-mamãe’ em versão globalizada. Provavelmente ‘adquirido’  nas belas imagens de histórias familiares contadas nas revistas femininas e/ou em outros meios de divulgação, ainda contaminados pela dominação patriarcal, como na imagem e nos produtos associados ao conforto a que todos merecem. (Não é à toa que a ONU passou a considerar oficialmente a FELICIDADE como uma ferramenta para o desenvolvimento dos países, veja a notícia completa em  http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=281604 ).
O esforço por encarnarem e desfrutarem de papéis ou ‘scripts’ pré-estabelecidos de convivência, faz com que a angústia individual desses personagens funcionem como empecilhos para o contato verdadeiro e possível entre eles, limitando-os à interação com as ‘coisas’ (inclusive seus modelos de papéis) e não com as pessoas. Cegueira absoluta para a essência do ser e de SER. Um relacionamento EU-Isso, lembrando de Bubber, em detrimento do EU-TU (sobre Martin Bubber vide post “Ciúme, o contrário do amor” no link  http://psicolharizando.blogspot.com/2011/07/ciume-o-contrario-do-amor.html).
Outro fato que me chamou a atenção foi a de que tudo isso transcorre em pleno século XXI, a despeito de todos os ‘’avanços’’ sociais, científicos e culturais da humanidade: a emancipação da mulher, a liberação sexual, a inserção do masculino nas relações familiares, a inserção da mulher no mercado de trabalho, a igualdade de direitos, a livre expressão das individualidades,  os direitos humanos, os direitos da infância e dos adolescentes, os direitos trabalhistas, a preocupação ecológica, a denúncia de ‘bullyings’, a criminalização do preconceito racial, entre tantas denúncias e estatutos protecionistas). Será que avançamos mesmo? Enquanto o núcleo familiar se mantiver impregnado de concepções estereotipadas e insensíveis às necessidades humanas de seus próprios membros, a que tipo de progresso estamos submetendo nossos entes queridos e a história da nossa civilização?
Leonardo Boff, se referindo à ‘relação de reciprocidade’ possível no encontro entre o masculino e o feminino, lembra que em sua essência humana, “embora diferentes, homem e mulher se encontram no mesmo patamar humano, e vivem, A PARTIR DAÍ , o seu cara a cara”  (2002). A distorção a que estamos acostumados, seria uma má interpretação da diferença entre os gêneros, que serviu para subordinar a mulher ao homem, coisificando-a como um dos bens que ele possui, e ainda, excluindo-a da visibilidade social. Onde predominam relações dissimétricas, injustas e desumanizadoras para AMBAS as partes (Filmes indicados: “Que fiz eu para merecer isto?”,de 1984, e o também inglês, “Shirley Valentine”, de 1989).
Desde o nascimento é no núcleo familiar que somos apresentados ao MUNDO que se desdobra além do círculo de conforto que nos cerca. A Psicologia sabe da relevância da “modelagem social’’ (A. Bandura)  no comportamento humano. Em sua teoria cognitivo-comportamental, Bandura (1977) afirma: "O aprendizado seria excessivamente trabalhoso, para não mencionar perigoso, se as pessoas dependessem somente dos efeitos de suas próprias ações para informá-las sobre o que fazer. Por sorte, a maior parte do comportamento humano é aprendido pela observação através da modelagem. Pela observação dos outros, uma pessoa forma uma idéia de como novos comportamentos são executados e, em ocasiões posteriores, esta informação codificada serve como um guia para a ação." (p22).  Por mais que exista a possibilidade a novos comportamentos, sabe-se a relevância desses  ‘modelos’  quando ainda adornados de glamour e conforto. Após anos de educação para o consumo desenfreado (Sem Pensar) em detrimento da lógica de bem-estar e desenvolvimento da humanidade, nascida dos ideais das conquistas científicas e tecnológicas. Outra ferramenta de dominação do patriarcado. (Talvez seja por isso que tantas normas de comportamento  sejam pensadas e escritas para fazer valer o direito e a responsabilidade de todo SER-humano consigo mesmo, com os outros e com o mundo ).
Porém, sob o olhar psicológico fenomenológico-existencial, sabemos que mesmo quando nós ‘escolhemos’ modelos de comportamento pré-estabelecidos para responder às nossas necessidades na vida, são necessárias ponderações existenciais. Se apenas escolhemos repetir padrões sem a devida reflexão e a participação de quem somos (‘Sem Pensar’), na verdade estaríamos escolhendo não-existir e não-SER para as nossas possibilidades, acrescentando mais angústia a existência, cegando-nos à nossa potencialidade criativa e, consequentemente, limitando-nos a atuação na realidade..
O contrário disso seria o ‘’ideal’’ mais próximo a que podemos chegar,  para viver com autonomia e interatividade, e que, apesar de e por causa de  todas as dificuldades (não é tarefa fácil mesmo!) nos traz a sensação de integridade, bem-estar ou felicidade que nenhum decreto, estatuto, aquisição de produtos ou normatização de comportamento nos garantirá. Ou, conforme Boff (2002) ‘independência e identidade’ para o cuidado de nós mesmos e das relações que enriquecem a  existência
“Sem Pensar’, é uma dica de espetáculo com traços cômicos, num tipo de BBB familiar em linguagem teatral, onde podemos ‘espiar’ o que acontece dentro das famílias, que exalam perfeição, e a forma com que se dão os relacionamentos ‘do momento’, conforme  visão de uma jovem adolescente de 17 anos. Conflitos e angústia humanos no esforço para manutenção e imposição de papéis, que nos deixam pensando sobre o porquê viver ‘sem pensar’, se as consequências são evidentes.
Talvez, esse seja o motivo do riso ‘nervoso’ de alguns espectadores:  sem pensar e sem se responsabilizar pelas consequências. Afinal, nesta lógica podemos nos colocar como vítimas da existência, que nos ‘’obriga’’ a fazer escolhas impensadas, que ‘sempre foram assim”...  Até quando?
Aproprie-se de suas escolhas, cuide-se BEM!!!!


Para saber mais:

- BOFF, L., Muraro. R.M. Feminino e Masculino – uma nova consciência pra o encontro
       das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

- BUBER, Martin. Eu e Tu. 8.ed. São Paulo: Centauro, 2004.

- Ziglio, A. “Sem Pensar: risos e muita reflexão”.  Reportagem IG Cultura, 2011.  Disponível em http://colunistas.ig.com.br/monadorf/2011/07/22/sem-pensar-risos-e-muita-reflexao/

domingo, 17 de julho de 2011

FELICIDADE, LIBERDADE, PAIXÃO, AMOR ETERNO, ...

FELICIDADE, LIBERDADE, PAIXÃO, AMOR ETERNO, ...


Tenho comentado em vários posts a lógica daseinsanalítica (ou melhor, o olhar fenomenológico-existencial daseinsanalítico) sobre os ‘princípios existenciais’ dos quais nenhum humano pode se eximir. O cuidar-de-si, a necessidade do outro, a faticidade, a distração, a finitude, são princípios fundamentais (e pontos principais) de toda a lógica daseinsanalítica existencial.
Pensando no comentário de um paciente sobre a “falta de graça’’ de tais suposições, após observação de suas ‘fantasias amorosas’ na busca de vínculos afetivos de longa duração, me veio em mente a suposição de que estamos cada vez mais limitados em ‘’colorir’’ nossas existências criativamente em função de ‘scripts’ (ou modelagem) não só pertinentes às nossas funções enquanto membros de um grupamento social, mas também pertencentes ao maravilhoso-mundo-das-fantasias-para-ser-feliz.  Ou, melhor dizendo, estamos nos impossibilitando a  fazer escolhas criativas para a construção de nossa realidade, muito provavelmente devido à forte influência das “fantasias’’ disponibilizadas no contexto social e cultural. Assim como adquirimos bens para a nossa sobrevivência, também passamos a nos acostumar a juntamente com eles, adquirir fantasias pré-estipuladas para a nossa alegria e bem-estar. Mas, será que essas fantasias realmente nos satisfazem frente as possibilidades inerentes à nossa própria existência?
No âmbito do ‘amor-paixão’, como já vimos no post anterior, criar fantasias parece ser algo da natureza neurofisiológica da nossa espécie, mas, insistir para que essas sejam as únicas possibilidades de dar algum colorido à dureza da existência, e às dificuldades de uma interação afetiva, me parece um dano de potencialidade, já que perde-se contato com o poder de criar e de (re)inventar a própria história de acordo com as próprias possibilidades. (Lembro do caso de uma moça que se relacionava há pouco tempo com seu namorado, apaixonadamente. Em pleno desfrute da paixão, decidiu acabar com tudo pelo descontentamento de não ter sido envolvida numa celebração de ‘Dia dos Namorados’ satisfatória às expectativas dela. Abriu mão de vivenciar a paixão, desfrutar da convivência, o desenvolvimento pessoal, etc., em função da inexperiência dele para realizar seus sonhos, literalmente.
Fazer planos, ter sonhos, criar fantasias, são  pertinentes a nossa necessidade de viver e construir o futuro. Mas porque precisamos ser tão limitados nessas escolhas prévias? Por que precisamos sempre optar pelo ‘’script’’ que adquirimos assistindo a ‘’vida dos ‘’outros’’ acontecer? Se é que elas acontecem desse jeito mesmo ?!?!?! Por que não nos sentimos felizes na medida da liberdade que dispomos para construir a nós mesmos?  Será que existem ‘scripts’ tão poderosos ao ponto de superarem as dificuldades da existência e assim nos libertar da tarefa de construir a nós mesmos e o mundo que queremos compartilhar?
Sinceramente, não sei...(aceito sugestões!!!). Só sei que existir e sobreviver nas dificuldades que se encontram no mundo e, mesmo assim, se manter autêntico apesar delas, me parece ser o melhor BEM que podemos adquirir para a vida. Assim o sinto e compartilho com o mundo. Acredito que esse modo de ser-estar-no-mundo é o lugar  mais próximo a que podemos chegar, do que entendemos como liberdade e felicidade. Possível, vivenciada e compartilhada, apesar de tudo!  Afinal, lembrando do filósofo existencialista francês,  Jean-Paul Sartre: “não se trata do que a vida faz com a gente, mas o que a gente faz com a vida que se apresenta...”, ou algo nesse sentido.
Fantasia, felicidade, amor eterno.... parece que tudo acontece no mesmo padrão de construção do cotidiano.  E ao ler o post de Márcia Tiburi, abaixo resumido, espero complementar e desvelar um pouco mais dessa dinâmica existencial da atualidade. Uma distração pra lá de perigosa.  
(Márcia Coutinho)

Indústria cultural da felicidade
Discursos prontos vendem a ilusão de que ser feliz é acessível a todos na era contemporânea

Sacralização do consumo
(...) A ausência de pensamento característica de nossos dias define a falta de lucidez sobre a ação. Infelicidade poderia ser o nome próprio desse novo estado da alma humana que se perdeu de si ao perder-se do sentido do que está a fazer. Desespero é um termo ainda mais agudo quando se trata da perda do sentido das ações pela perda da capacidade de reflexão sobre o que se faz.
Sem pensamento que oriente lucidamente ações, é fácil se deixar levar pelos discursos prontos que prometem “felicidade”. Perdida a capacidade de diálogo que depende da faculdade do pensamento, as pessoas confiam cada vez mais em verdades preestabelecidas, seja pela igreja ou pela propaganda – a qual constitui sua versão pseudossecularizada. (...)
Tudo isso pode fazer parecer que a felicidade foi profanada para entrar na ordem democrática em que ela é acessível a todos. O sistema é cínico, pois, banalizando a felicidade na propaganda de margarina, em que se vende a “família feliz”, ou de carro, em que se vende o status e certa idéia de poder, a torna intangível pela ilusão de tangibilidade.
Sacralizar, sabemos, é o ato de tornar inacessível, de separar, de retirar do contato. Na verdade, o que se promove na propaganda é uma nova sacralização da felicidade pela pronta imagem plastificada que, enchendo os olhos, invade o espírito ou o que sobrou dele. A felicidade capitalista é a morte da felicidade por plastificação.
Fora disso, a felicidade filosófica é da ordem da promessa a ser realizada a cada ato em que a aliança entre pensamento e ação é sustentada. Ela envolve uma compreensão do futuro, não como ficção científica, mas como lugar da vida justa que se constrói no tempo presente.
A felicidade publicitária apresenta-se como mágica dos gadgets eletrônicos que se acionam com um toque, dos “amigos” virtuais que não passam de má ficção. A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois. Ilude que não há morte e com isso dispensa do futuro. Resulta disso a massa de “desesperados” trafegando como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento. (Marcia Tiburi)

Para ler o post na íntegra: